Uma linha separa, demarca, estabelece fronteiras. Verifique nos mapas, por gentileza. A lei incide em territórios definidos por esse misterioso signo gráfico. Os rios se distinguem, nas cartografias, pelo desenho azulado e suspeito de suas margens. Como fixar as águas turbulentas nos leitos que escolhem trilhar? Nos mapas, também o mar separa-se da terra. Mas no litoral onde pisam os pés, nenhuma linha subsiste, nem mesmo a do horizonte. E a criança que rabisca o papel narrando as andanças de um personagem? O que são essas garatujas que nada contornam, que nada definem? Registro do gesto? Quando deixamos de brincar com as linhas? Em que época e por quais motivos insistimos na linha como a instância da separação? A linha do mapa equivale à pele que demarca o interior, não de um corpo, mas de uma pessoa? E os orifícios que transformam dentro em fora. Alguma linha os detém? A pele como ondas da praia, uma estrutura mutante que avança e recua, que se enfurece e que amansa. Assim como a onda lambe a areia, leva e traz conchas, águas-marinhas, peixes mortos ou vivos, conchas e outros seres, o corpo vivo, íntegro, recebe em suas fronteiras o exterior, o estrangeiro. Só vivemos às custas daquilo que não somos. Os sulcos que marcam as peles velhas são escrituras dos outros, dos exteriores e dos estrangeiros alojados na pele curtida pela vida.
